26 may. 2009

Pout Porri em Moinho de Versos por A.A

Pout Porri em Moinho de Versos

(como o poeta Leminsky escreveu: Há de existir um dia em que tudo que se diga seja poesia)

Meu bem, o mundo é fechado,
Se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
Mas a pena não existe

É fácil viver com os olhos fechados
Sem entender tudo o que vê
Está difícil ser alguém
Mas ,deixa, está tudo bem
E isso não é mesmo importante

É sempre no meu sonho aquela guerra
É sempre no meu trato o amplo destrato
Sempre na minha firma a antiga fúria

Este, o triste cavaleiro
De tristíssima figura

Vive dando cabeçada.
Navegou mares errados,
Perdeu tudo que não tinha,
Amou a mulher difícil,
Ama torto cada vez

Algumas palavras duras,
Em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.

E ama sempre, desfalcado,
Com o punhal atravessado
na garganta ensandecida.

A infância está perdida.
A mocidade está perdida.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu D’us.
Tempo de absoluta depuração.

Eu acho que ninguém está na minha
Eu tento dizer que posso estar bem ou mal
Mas não é mesmo para entender
Deixa, tanto faz, tanto faz

Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar...

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.

E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
E o coração está seco.

És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Meus amigos foram às ilhas.

Teus ombros suportam o mundo
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
Tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
Tão calma! Vai inundando tudo...

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.

O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.

Viste as diferentes cores dos homens,
As diferentes dores dos homens,
Sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
Num só peito de homem...sem que ele estale.

Outrora escutei os anjos,
As sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.

Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
Países imaginários, fáceis de habitar,
Ilhas sem problemas, não obstante
Exaustivas e convocando ao suicídio.

Nada a fazer como este tipo
Avesso a qualquer romança
Ou ode, apenas terráqueo,
Ou nem isso, extraterráqueo,
De quem não se ouve um grito
mais além do que gemido,

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
Como é triste ignorar certas coisas

Quisera possuir-te
Neste descampado,
Sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.

Aquela sua glória
Feita de mistério,
Outra seu desdém,

Preferes o amor
De uma posse impura
E que venha o gozo
Da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
Luto todo o tempo,
Sem maior proveito
Que o da caça ao vento.

Meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
Entre a vida e o fogo,
Meu coração cresce dez metros e explode.

É sempre no passado aquele orgasmo
É sempre no presente aquele duplo
É sempre no futuro aquele pânico
É sempre no meu peito aquela garra
É sempre no meu tédio aquele aceno

Iludo-me às vezes,
Pressinto que a entrega
Se consumará.

Mas ai! É o instante
De entreabrir os olhos:
Entre beijo e boca,
Tudo se evapora.

Sempre no mesmo engano outro retrato
É sempre nos meus pulos o limite
É sempre nos meus lábios a estampilha
É sempre no meu não aquele trauma
Sempre no meu amor a noite rompe
Sempre dentro de mim meu inimigo
É sempre no meu sempre a mesma ausência

Inútil corpo, alma inútil
Se não transfunde alegria
E esperança de renovo
No universo fatigado
Em que repousa e não ousa.

Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
Poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
Apareço e tento
Apanhar algumas
Para meu sustento
Num dia de vida.

(Vagar a esmo e bom meu filho,
Deita-te aos pés desta mulher
Que por um instante te devolveu a mim e a este muro chamado solidão)

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra ...

Tudo somado, devias
Precipitar-te, de vez, nas águas.
As ilhas convocam ao suicídio.

Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Versos diversos e soltos ,propositalmente com pequeníssimas alterações ,de Drummond de Andrade .Segue também pequeno trecho traduzido inadvertidamente de Strawberry Fields Forever –The Beatles.

Armando Aguiar
Rio de Janeiro
Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

ימלא פי תהילתךכל היום תפארתךאל תשליכני לעת זיקנהככלות כוחי אל תעזבני

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